Todo dia o ônibus passa as 8:30 da manhã. O próximo seria 20 minutos depois. E tem lá, um grupo de 5 pessoas que sempre pega o mesmo ônibus comigo. E aqui começa um tipo de interação que é esquisita para introvertidos e super-analisadores de coisas banais: àquelas pessoas são desconhecidas, mas não são estranhas. Tem uma mocinha chinesa com uma bolsa com estampa xadrez, tem um rapaz de barba vermelha com um livro, tem um senhorzinho bem baixinho de mochila com botões da causa LGBT, tem um rapaz com jeito de apressado, e tem eu.
E a indiferença um dia se quebrou. Começou assim: o rapaz de barba vermelha começou a me dar OI. Achei simpático. Até o dia em que ele se sentou no ônibus comigo, e começou uma conversa. Conversa de verdade, que exige pensar, prestar atenção, responder. As 8:35 dá manhã. Em minha segunda língua. Com um semi desconhecido. Cercado de estranhos. Na ida ao trabalho. Ai gente do céu azul dos dias nublados, protetores dos introvertidos! Me salve!
E no dia seguinte quis evitar, dei um "oi" correndinho, com fone de ouvido. Sentei num banco sem espaço para outra pessoa. E o rapaz ficou meio assim sem saber o que fazer. Talvez pensando: "Que menina estranha". E eu pensando: "Cadê o senso de entender que não se fala com estranhos antes das 10 da manhã?" E percebi que ele tentou outros amigos. E fiquei triste porque entendi que o que ele queria mesmo era fazer amigos. Num mundo de Tinder, Twitter, e Reddit. Ele era uma pessoa "pessoa" mesmo.
E aí chegou O DIA.
Tudo acontecia como sempre. Fizemos uma fila quando o ônibus chegou, entrando um a um. Ele se sentou ao lado da mocinha chinesa. Ela foi bem simpática. Respondeu. Falaram sobre TV, filmes, internet. Conversas de ônibus são tão coletivas, que todo mundo escuta, finge que não, e coça a língua pra não comentar. E eu, bem quietinha, quis continuar com minha cara de anti-social. Fingi não escutar. Mas escutei, e tudo parecia estar indo muito bem. Até que a dois quarteirões da parada final, na estação do metrô, o rapaz tomou uma coragem gigante, e disse assim pra menina chinesa:
- Estava pensando, você não quer ir assistir neste final de semana o novo STAR WARS comigo?
Eu fingi ainda mais que não ouvi, mas meu rosto ficou vermelho por empatia. No meu mundinho estranho e super-analisado não se fala com estranhos tão cedo. Não se chama estranhos pra sair tão cedo. E a menina, meio sem jeito, não respondeu nem que sim nem que não. Fingiu que não entendeu a pergunta. E saiu do ônibus assim que as portas se abriram.
E passaram-se mais dias, e o rapaz insistiu em fazer amigos. E continuou falando "oi", e puxou assunto. E um dia entregou vários panfletos chamando estranhos para uma festa em seu quintal. E insistiu, e insistiu. Mas neste mundo anda difícil fazer amigos. Ainda mais no dia a dia, fora dos aplicativos. Não se conhecem pessoas na rua. Não saímos de casa. Andamos rapidinho até o trabalho, e depois de volta. E nos fechar dentro de casa é tao libertador.
Ele tentou viver num mundo mais humano. De mais contato. Foi corajoso. E até consigo ver nele uns traços tao meus de uma certa ansiedade. Mas ele lutou, e fala com estranhos para superar a barreira. Ele é tão mais corajoso que eu. Que me coloco entre muros todos os dias, dentro do ônibus, do metrô, cercada de pessoas, isoladas.
Mas continuei a fingir que escuto música todo dia. E continuei a fingir que não escutei o tal fora da menina chinesa. E faz uns dias que percebi que ele deixou a barba crescer ainda mais. E começou a usar fone de ouvido. E também passou a dar "oi" bem rapidinho. E senta o mais longe possível das pessoas.
Coitado. Desistiu de ser gente. E foi minha culpa também.
Ou talvez ele tenha desistido de conhecer outros, e faz como eu. Não fala com ninguém, mas deixa essas conversas internas tão soltas fluírem, e vagarem. Até que um dia viram histórias tão comuns como essa.
Histórias do Comum
Do geral, do universal, do coletivo, do frequente, da rotina, do ordinário, do global.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Lurdes, a estranha
Em uma sala de jantar comum, em uma cidade que podia ser qualquer lugar:
Ahhhhhhh jura Lurdes do céu? Que boa observadora você! Merecia um prêmio de conhecimento e desvendamento da intimidade humana por ter descoberto este segredo tão escondido. Olha, Lurdes, o Fulano é tudo, menos estranho. Ele é inteligente, feliz, trabalhador, honesto, nada superficial, cuida da própria vida, criativo, gay, comunicativo, se conhece, amado, não engole sapo, não tem vergonha de ser quem é, cheio de amigos. Ele não colocou no jornal que é gay. Assim como você não colocou que não é. Mas ele está lá, feliz, gay, super gay, pra quem quiser ver.
Estranha é você!
(Tenho vergonha de falar qual a profissão da Lurdes...)
- Paula, sabe quem eu vi hoje? O Fulano.
- Onde Lurdes? Que saudade do Fulano!
- Foi numa padaria. Fiquei um tempão observando ele [ta bom vai, ela não falou isso. Mas foi isso que ela fez!].
- Como assim Lurdes?
- Sabe o que ia te falar? Sempre achei o Fulano tão...assim...estranho...
- Como assim Lurdes?
- Sabe o que ia te falar? Sempre achei o Fulano tão...assim...estranho...
- Estranho?
- Ah Paula, assim, sei lá...tenho até medo de falar...mas acho que ele tem um jeitinho...assim...meio... assim...de gay.
- Ah Paula, assim, sei lá...tenho até medo de falar...mas acho que ele tem um jeitinho...assim...meio... assim...de gay.
Ahhhhhhh jura Lurdes do céu? Que boa observadora você! Merecia um prêmio de conhecimento e desvendamento da intimidade humana por ter descoberto este segredo tão escondido. Olha, Lurdes, o Fulano é tudo, menos estranho. Ele é inteligente, feliz, trabalhador, honesto, nada superficial, cuida da própria vida, criativo, gay, comunicativo, se conhece, amado, não engole sapo, não tem vergonha de ser quem é, cheio de amigos. Ele não colocou no jornal que é gay. Assim como você não colocou que não é. Mas ele está lá, feliz, gay, super gay, pra quem quiser ver.
Estranha é você!
(Tenho vergonha de falar qual a profissão da Lurdes...)
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